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Paulo Gravina


Georges Lamazière — Da investigação à criação


Georges Lamazière é o que pode se chamar de um intelectual antenado. Estudou direito, filosofia e ciência política; após ter sido professor universitário, ingressou na carreira diplomática e chegou a atuar como portavoz da Presidência da República. Pode-se considerar que a carreira literária começou com sua tese de mestrado, que trata do filósofo Ludwig Wittgestein, autor até hoje bastante estudado nas teorias de literatura e linguística. Lamazière publicou dois romances policiais — “Um crime quase perfeito”, em 1995, e Bala perdida em 1999 — e um ensaio sobre o pós-guerra do Golfo chamado “Ordem, hegemonia e transgressão”. Seus livros são coroados por uma vasta erudição e por um humor refinado — marcas quase sempre presentes no grande escritor brasileiro. 

 

Você declarou em sua dissertação de mestrado que a poesia e a filosofia seriam maneiras de a linguagem sair de férias. Você diria que tenta realizar esse projeto em seus romances?

A dissertação de mestrado já vai longe, assim como Wittgenstein. Agora, não há dúvida de que qualquer uso não utilitário da linguagem tem esse caráter de gratuidade, de algo lúdico, de feriado. Só que a filosofia leva, talvez, a umas férias meio chatas, pretensiosas, que lembram o anátema francês contra bronzer idiot, algo como a obrigação de ter férias inteligentes, talvez levando Proust para a praia. Já a poesia, e por extensão a literatura, seria a linguagem de férias com tudo o que isso conota de liberdade, imaginação, prazer.

 

Em sua obra, há algumas citações da poesia de João Cabral de Melo Neto, que é, como você, escritor e diplomata. Como o poeta influencia sua escrita e carreira e que outros autores contribuíram em sua formação?

Tenho admiração sem limites pela obra de João Cabral, talvez o Prêmio Nobel que a literatura brasileira deveria ter recebido, na minha opinião pessoal. Nele, como em Graciliano Ramos, encontro qualidades que prezo particularmente, como precisão, austeridade, secura da linguagem. Para além dessa convivência como leitor, não penso que houve nenhuma influência, nem na escrita nem na vida profissional, nesta última inclusive porque nunca cheguei a ter oportunidade de trabalhar com ele ou conhecê-lo pessoalmente.

 

Suas experiências pessoais incluem estudos nas áreas de direito, filosofia e ciência política e trabalhos como professor, diplomata e embaixador. Você diria que essa diversidade favorece suas construções ficcionais?

O que mais fornece elementos para a construção ficcional é a vida, claro, além da leitura de outros. autores, do acervo histórico da literatura mundial. A vida cotidiana me é crucial como material literário, na medida em que permite experiências e observações que acabam nos livros, conscientemente ou não. Provavelmente, tanto faz a profissão de cada um, a não ser pelo que possa proporcionar como ocasiões para experimentar e observar. Neste sentido, e neste sentido apenas, a vida diplomática sem dúvida permite uma gama muito variada de vivências.

Seu romance Bala perdida é uma obra comentada, misturando ficção e crítica; além disso, é admitidamente experimental em termos de gêneros e linguagem. Quais seriam as novas possibilidades de criação literária nos dias de hoje e quais seriam as perspectivas para o futuro?

É próprio da teoria literatura, ou da crítica de arte, atribuir intenções mais gerais ou, pelo menos, efeitos mais abrangentes a decisões singulares e individuais em determinada obra de determinado artista. Pode-se falar da abolição do personagem, da estrutura narrativa, da rima, da figuração na pintura, etc. etc. E isso pode e deve ter sido o caso da maioria dos grandes gênios revolucionários da arte. Também podemos fazer uma obra porque pensamos que, assim, ficaria melhor naquele caso preciso para resolver um problema específico, surgido no próprio fazer do romance, sem querer nem inovar nem inaugurar nada. É o caso do livro em questão. Como o personagem era um escritor iniciante, que tinha seu primeiro manuscrito recusado, surgiu a ideia de fazer eco, ou reflexo, da história em um comentário sobre o livro, e a coisa tomou corpo, nutriu se de si mesma de forma inesperada. Só isso. Quanto a perspectivas para o futuro, todas são possíveis, ao contrário do que pensavam as vanguardas de tempos atrás. Podemos ter formas novas com ideias velhas, formas velhas com ideias novas, fatos novos contados de forma conservadora ou inovadora. Tudo isso será a cada escritor de decidir, fora de escolas e movimentos, e a cada leitor de julgar, soberanamente.

 

O protagonista de Bala perdida declara que os conhecimentos teóricos seriam vistos como um simples rito de passagem. Qual sua posição em relação à teoria literária? Você diria, seguindo Wittgenstein, que “é preciso jogar fora a escada depois de ter subido por ela”?

Só posso falar de mim; não tenho nenhuma aspiração a julgar uma disciplina tão respeitável. Mas, pessoalmente, prefiro cada vez mais ler o original, e não o comentário — sobretudo se esse comentário for muito complicado.

 

Você é um grande defensor e entusiasta do gênero policial. Por que a preferência por esse gênero?

Talvez já não seja mais nem tão grande defensor nem tão entusiasta. Num primeiro momento, tinha um quê de novidade escrever nessa linha no Brasil, como reação ao regionalismo do passado, buscando retratar a vida urbana em uma linguagem mais direta. Aí o marco óbvio é a obra de Rubem Fonseca, que foi para mim uma libertação. Depois, a coisa se banalizou e comercializou muito, como sempre, com uma miríade de coleções especializadas. Fica, porém, de positivo um traço primordial do gênero policial: o fato de que, depois de tanta narrativa sem começo nem fim, sem sujeito e sem desenho claro, havia a possibilidade de uma estrutura coercitiva, de uma regra do jogo, mesmo que para brincar com ela, subvertê-la.

 

Qual seu conselho a nossos leitores caso se vejam confrontados com alguma investigação?

Se investigação policial ou científica, que procurem ser o sujeito e não o objeto da própria.



Esse texto foi publicado no plástico bolha nº27: download PDF

 

 






 

 


 

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