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Suave Cotidiano



“Primeiro: não fale. Espere que te entendam.”

O dia a dia de Dorival é bem simples. Não há grandes mudanças na sua rotina quer esteja em Copacabana, Pequeri ou Rio das Ostras. Costuma acordar por volta das seis da manhã. Até antes. Fica na cama, esperando o movimento da casa começar para não acordar ninguém. Faz, em silêncio, a Oração da Manhã, que conhece desde menino.

Depois da oração, medita e espera o café da manhã. Por causa da diabetes, não costuma abusar na alimentação. Mas sempre que pode não dispensa uma balinha ou lascas de rapadura, pacientemente cortadas por Cristiane, que trabalha na casa há anos, e colocadas num vidro que fica em seu escritório. Disciplinado, não comete extravagâncias. Sabe se conter. É metódico. Gosta de se aproximar da janela a qualquer hora do dia — critica muito quem encosta móvel Interditando o livre acesso a ela. Se está em Minas, onde tem passado longas temporadas, abre a janela de manhã e enche os pulmões com o ar puro da montanha. Se passa alguém, apressa-se em acenar e recebe um alegre “Bom dia, Seu Dorival”, do primeiro passante do dia. Responde com alegria. É bom estar vivo.

É uma bonita caminhada desde o mar até a montanha. Um caminho de sabedoria. As músicas que canta para os montes de Minas só ele sabe. Costuma ler. Na última vez em que eu perguntei, ele tinha relido as obras completas de Machado de Assis. À sua maneira, é tão sábio quanto o Conselheiro Ayres. Ou mais, pois não se afastou das mulheres. Observa a vida que corre. Aceita cada um como é. Nada exige. Nada impõe. É a favor da liberdade total. Perguntem a Denise, João Gilberto, Juliana, João Victor, Gabriel ou Alice. Só sabe o que lhe contam. Não faz da vida alheia um alimento da sua curiosidade. Invadir, jamais. Conversa com criança pequena como se fosse gente grande. Ele as respeita. Elas o amam. Não existe melhor ombro para chorar. Eu mesma já chorei ali muitas vezes e saí consolada. Deitei, mesmo depois de adulta, na sua barriga — quando ela era grande, era ainda melhor.

É um ser compreensivo. Jamais reclama. Tem um humor manso, para ser ouvido como quem escuta João Gilberto sussurrar ao violão, ou a mulher amada, como diria Vinicius. “Necessariamente, para viver feliz tem que ter o ingrediente mais sério: humor. Consulte Millôr Fernandes, que é o definitivo” — explica. Suas tiradas são inteligentíssimas. Noutro dia disse: “Gostar é um fenômeno da hora”. Enxuto. Não é à toa que lê, apaixonado, a poesia dos Manuéis, o Bandeira e o de Barros. Adélia Prado é poupada, para não acabar. A Bíblia, Dom Quixote, de Cervantes, e Cândido, ou o otimismo, de Voltaire, ordenadamente dispostos na sua mesinha de cabeceira, são sempre revisitados, fertilizando sua imaginação. “Eu sou escravo de um personagem, eu sou escravo de Dom Quixote de la Mancha” — confidenciou-me certa vez. Como Millôr gosta de dicionários, ele gosta de enciclopédias. E as lê, de A a Z. Cultiva a memória. Faz palavras cruzadas. E descreve seu dia em agendas há quase quarenta anos (eu que o diga!). É um profundo admirador da tecnologia, mas não chegou ao computador. Tem preguiça. Deixa para os mais jovens. Seu ídolo é Thomas Alva Edison, o inventor da lâmpada incandescente e o precursor do cinematógrafo.

Conversar com Caymmi é uma arte. E quando isso acontece exige sua total atenção. É detalhista. Cinematográfico. Pinta o cenário antes de desencadear a ação no imaginário do seu interlocutor. É plástico. É um homem informado. Sabe tudo o que está acontecendo, lê jornais, revistas e vê televisão, mesmo que para ler tenha de usar, além dos óculos duas lentes de aumento, por causa de uma catarata que não pode mais ser operada. Não desgruda de Stella. Quando cochila — ele sempre cochilou — na hora da novela, Stella repete: “Caymmi, vá se deitar”. Não adianta nada, ele fica ali sentadinho, até ela ir junto. Sonha em reunir a família completa para um longo fim de semana. Infelizmente, isso nem sempre é possível para as agendas dos filhos, netos e bisnetas. Gosta do movimento da mulher com as amigas e colaboradoras no zelo com a casa. Alda, Cristiane, Telma, Elaine, Sonia, Celena, Mara e Vandréia lembram-lhe as mulheres de saia de sua infância. Vive rodeado de mulheres. Ainda tem Maryara, que é sua amiga há anos; mas só se conhecem por telefone. Uma amiga virtual. Batem longos papos. A vida para ele não teria a menor graça sem a mulher.

Às vezes, fica longos períodos em silêncio, com os olhos no longe. Tem uma vida interior impossível de ser comunicada. Ninguém o incomoda quando está quieto. Stella, que vive com ele há mais de sessenta anos, instruiu a todos da casa que quando fosse assim não o interrompessem. “Sem a ação contemplativa você não consegue reunir a capacidade de absorção. Você larga os olhos no espaço e a memória, aí, tem mais atividade” — ensina. Sobre a música, disse certa vez que “o artista não deve morrer de amor pela primeira coisa que faz”. Quando escuta Bach, seu compositor favorito, atinge regiões impensáveis para a maioria de nós. Sobre a morte, costuma dizer que já está no lucro. Tem muita consciência de si. Quem se aproxima dele percebe que está diante de um homem realizado. Ele é irresistível.

Vê beleza onde as pessoas menos desconfiam. Interessa-se por pequenas coisas, como a trajetória da formiga até o formigueiro carregando uma folha três vezes maior que o seu tamanho, ou como a visita do beija-flor, que costuma pousar em seus cabelos brancos. Você não sabia? Caymmi conversa com os pássaros.



Esse texto foi publicado no plástico bolha nº27: download PDF

 

 






 

 


 

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