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Erro
Claudia Chigres,
professora do Departamento de Letras da PUC-Rio


Erro ou erro nas errâncias do texto? Nas reentrâncias, estrias, que, com ou sem vírgula, me tecem como aprendiz, que diz o que eu digo e contradigo. Erro ou nego a vírgula maldita que me incita a dizer o que não digo? Então contradigo. Erro por essas veredas cujos tons hesitam e então não digo. Então digo. Hesito, logo erro. Hesito, logo existo. Existo, logo erro. Existo, então hesito. (Dei as cartas). Erro e hesito. Erro e êxito. Êxito e errância. (Montei-me). Ensaio. Ensaio o erro. Ensaio o que nego e não digo, o que hesito e contamino. Porque se não erro, não hesito; se não erro, não existo. Onde a maldita vírgula? Onde erro, acerto o ponto, acerto o passo. Mas hesito. Então erro, visito, ensaio. Tento o não dito, experimento. Minto o que não digo, o que não sinto. Não minto quando me contradigo, quando quase sinto o que me contamina. Sina, sinal, ensina; ensina, ensaia. Ensaia na sala, no espaço que ensina, que incita, que conta, que mede, que pensa, que pede. Onde a maldita vírgula? Faço, refaço, prefácio. Refiro, prefiro, sugiro. Giro. Rodopio. Na rede, na sede, na verve que ferve, fervilha, vasculha, procura e não cede. Giro e duvido, miro e revido. Absolvido, luto no contrafluxo, na contramão do sim, do sempre, do nunca. Então o quase, o pode, o tente, o erre, o acerte, o texto, o ponto, a vírgula, o livro. Eu livro, tu livras, ele livra. Nós erramos. Vós ensaiais. Eles tecem.



Esse texto foi publicado no plástico bolha nº28: download PDF
 






 

 


 

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