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Rousseau: o obreiro e sua obra

“Qual a relação entre o estilo adotado por Rousseau em sua obra Emílio ou da educação e a proposta pedagógica nesta apresentada? Ao constatar que a maneira de escrever legitima e elucida aquilo que foi escrito, como um componente ativo do texto, percebe-se a singularidade do estilo de Rousseau, convergindo para a afirmação do homem tanto no âmbito do discurso, isto é, da universalidade, quanto no âmbito da vida prática em suas diversas situações. Se fora do contexto pode parecer desconcertante e paradoxal, o discurso rousseauniano ganha vida no texto ao mesmo tempo que o sustenta, em um movimento dialético recíproco e coerente. Sobre a obra finalmente conclui-se que suas disposições físicas e metafísicas são instrumentais, que a cultura e o artifício devem buscar a realização plena da natureza humana e que a formação do homem tal qual Rousseau concebeu em Emílio tem grande influência sobre as aspirações educacionais vigentes até nossos dias.


Emílio ou da educação, de Jean-Jacques Rousseau, trata de temas políticos e filosóficos quanto à relação entre a sociedade e o indivíduo, explicando como este pode conservar sua bondade natural enquanto atua em uma sociedade inevitavelmente corrupta. Nessa obra, Rousseau elabora sua proposta pedagógica em torno da história romanceada de um jovem pupilo, Emílio, e seu tutor, o facilitador no processo de desenvolvimento do aluno.


A educação deve levar o homem a agir por interesses naturais, e não por imposição de regras exteriores e artificiais, pois só assim ele pode ser dono de si. Para Rousseau, a educação deve respeitar o indivíduo, sem institucionalizar um aprendizado moldado ao padrão social vigente. Sua didática é inédita porque confere à criança uma posição central no processo de educação, tal como nunca antes concebido. Repudiando a ideia do homem-cidadão, a proposta do autor é a educação do homem enquanto tal, pelo seu retorno à natureza, ou seja, ao cerne das necessidades mais profundas da criança, respeitando seu ritmo de crescimento e valorizando suas características específicas. Assim é educado Emílio, seu pupilo ideal, em meio à natureza, o cenário ideal.


Enquanto seus contemporâneos acreditavam que a criança limitava-se a um adulto em potencial, Rousseau valorizava as próprias propensões e vontades da criança, considerando-a digna de investigação científica. Ela não vem ao mundo como uma tela em branco; tem sua subjetividade latente, embora seja desejável o acompanhamento de um mestre competente. Segundo Rousseau, a primeira educação cabe, por natureza, às mulheres (mães), daí a importância de bem instruí-las para que
não mimem e estraguem seus filhos.


Na medida em que problematiza a figura da criança como individual e positiva em si, Rousseau acredita que a mãe já não pode dar conta de educá-la adequadamente e que um preceptor se faz necessário.


Rousseau lança mão de novas ideias para combater as que prevaleciam em sua época, principalmente a de que a educação da criança deveria ser voltada aos interesses do adulto e da vida adulta. Introduz a concepção da criança como um ser com características próprias; desse modo, ela não podia ser vista como um adulto, um ser pensante.


Ele não vê a educação como uma correção, mas como uma descoberta das habilidades naturais, em um processo de dentro para fora. Se na ordem social ensina-se ao homem uma vocação, na ordem natural ensina-se a ser homem.


Daí a importância da figura do preceptor no processo educacional. Este não é um modelo de retidão nem um modelador de caráter. Se por um lado ele é quase um coadjuvante no processo educacional, na medida em que deve deixar por conta do fluxo natural a tarefa educativa, sua participação é fundamental, já que a natureza não conseguiria levar a bom termo seu trabalho sem a ajuda dele: “Nascemos fracos, precisamos de força; nascemos desprovidos de tudo, temos necessidade de assistência; nascemos estúpidos, precisamos de juízo. Tudo o que não temos ao nascer, e de que precisamos adultos, é nos dado pela educação” (Emílio, p.10).


Cabe esclarecer que Rousseau concebe três tipos de educação: a da natureza, a dos homens e a das coisas. A educação da natureza aborda o desenvolvimento interno do homem, a educação dos homens faz uso desse desenvolvimento contínuo e a educação das coisas aborda o ganho sobre nossas experiências. A combinação dessas três formas seria o ideal, mas só a educação dos homens está sob nossa responsabilidade e possibilidade. Ainda assim, deve-se tentar aproximar a educação da natureza. As plantas, por exemplo, podem precisar de um melhor encaminhamento para que se desenvolvam melhor e deem frutos mais saborosos.


A criança recém-nascida não pensa, logo está mais próxima do conceito de homem ideal, natural. A partir do momento em que começa a se questionar, ela se desvirtua e perde seu estado de natureza. O que é exatamente essa natureza ideal, Rousseau habilmente se esquiva de elucidar. Contenta-se em concebê-la pela oposição àquilo que é social. O sentido da palavra natureza assume três possíveis significados ao longo de sua obra: o primeiro opõe-se àquilo que é social; o segundo é a valorização das necessidades espontâneas das crianças e dos processos livres de crescimento; o terceiro refere-se à exigência de um contato com um ambiente físico não urbano e por isso mais genuíno, sem as corrupções próprias da cidade.


Outro aspecto da educação natural é não aceitar uma educação intelectualizada, que leva ao ensino formal e livresco. O homem não é constituído apenas por intelecto, pois suas disposições primitivas, tais como os sentidos, os instintos, as emoções e os sentimentos, são dimensões mais dignas de confiança. Rousseau introduz ideias que o distanciam do pensamento racional cartesiano próprio do Iluminismo de sua época: “Transformemos nossas sensações em ideias, mas não pulemos de repente dos objetos sensíveis aos objetos intelectuais. É pelos primeiros que devemos chegar aos outros. Que os sentidos sejam sempre os guias em nossas primeiras operações do espírito: nenhum outro livro senão o do mundo, nenhuma outra instrução senão os fatos” (Emílio, livro III , p.175).


Ao afirmar que a educação não vem de fora, mas da expressão livre da criança no seu contato com a natureza, Rousseau, ao mesmo tempo que valoriza o papel do preceptor no processo educacional, evidencia uma ideia aparentemente paradoxal, mas que se revela coerente no contexto da obra. Outra contra-PUZZLES por luisa noronha Rousseau: o obreiro e sua obra dição diz respeito à liberdade. Se por vezes é um entusiasta do livre pensar e agir, por outras afirma que o homem natural não precisa ser livre, porque ele não pensa na liberdade. O estado de liberdade seria a condição social do homem. A única formação possível é aquela que aproxima ao máximo esse estado de liberdade do estado de natureza. Mas ao afirmar que criança não é um ser passivo às determinações da sociedade, Rousseau defenderá como eixo da educação infantil o respeito à liberdade desse ser. Emílio será livre, porém não desamparado.


Não por acaso esses conceitos escorregadios se materializam em uma escrita igualmente fugidia e complexa. É como se o estilo de Rousseau reafirmasse suas ideias, tornando-as um pouco mais palpáveis e acessíveis. Sua escrita dá voltas, envolvendo e conduzindo o leitor a um túnel giratório de raciocínio que parece cercá-lo e atraí-lo ao fundo — sem luz. Mas ele já o prevenira no prefácio sobre esse aspecto nebuloso de suas ideias: “No que diz respeito ao que chamamos a parte sistemática, que aqui não é senão a marcha da natureza, é ela que mais desconcertará o leitor; será também por aí, sem dívida, que me atacarão, e talvez com alguma razão” (Emílio, p. 3).


Além de a educação de Emílio não ser sistematicamente elaborada, a escrita de Rousseau denuncia essa complexidade; seu raciocínio parece descer em espiral, a um sentido profundo e indefinido. Ele ardilosamente se esquiva da imagem do autor uno que tudo sabe, intencionado como o ponto de produção da linguagem, libertando sua escrita de um caráter estático e pré-estabelecido, assim como espera que seu pupilo esteja livre
das tiranias da sociedade.


O leitor é convidado para saborear suas palavras com a ótica de uma criança que se deixa guiar sem pré-tensões, uma criança movida pela emoção. Seu apelo é visceral, pois exalta a autoconstituição subjetiva, totalmente íntima. Rousseau se expõe de tal forma que beira o narcisismo doentio, camuflado sob uma humildade introspectiva. Ele desarma o leitor, estabelecendo uma relação de parceria e abrindo a possibilidade de uma autoria coletiva.


No contexto de sua época, Rousseau formulou princípios educacionais que permanecem até os nossos dias, principalmente quando afirmava que a verdadeira finalidade da educação era ensinar a criança a viver e aprender a exercer a liberdade. Suas ideias influenciaram diferentes correntes pedagógicas, principalmente as tendências não diretivas, no século XX.


Com sua escrita elaborada e de difícil compreensão, Rousseau é, ao mesmo tempo, amado e temido: sua obra e mesmo sua pessoa são fascinantes para uma época em que um novo homem se abria para novos tempos. Ele não apresenta respostas pragmáticas à pedagogia, mas antes levanta questões e sonda respostas, instigando a investigação e a produção do conhecimento.


Seu maior mérito é problematizar a criança e lançar-lhe uma nova luz, como um ser dotado de identidade própria, além de propor o aperfeiçoamento humano pela reconciliação entre a natureza e a cultura numa espécie de retorno ao paraíso perdido, sem abrir mão dos atributos da ciência e da reflexão.


Esse texto foi publicado no plástico bolha nº29: download PDF

 

 

 






 

 


 

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