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Foi o mordomo

Dimitri Rebello


para Os Sete Novos e Pedro Costa


não seria legal se pudéssemos assistir a um filme sem saber de antemão do que se trata? mas está cada vez mais difícil. não bastasse toda a propaganda do lançamento, tem os artigos, as críticas. pior ainda: tem o youtube e tweets e blogs e o mural do facebook e os portais de notícias — eu só queria abrir meu email ver a previsão do tempo ver os horários de exibição do filme mas aí, antes que você perceba, já sabe o enredo, o fim, o começo, o meio, já sabe do diretor, dos atores, dos outros filmes que fizeram, dos filmes que vão fazer, de suas vidas privadas, e todos sabem da sua vida privada também, pelo facebook pelo twitter pelo blog (pelo orkut não mais), as mesmas pessoas (amigos?) que, sem você pedir e sem que ninguém pague nada pra elas, fazem de graça propaganda do filme, te contam tudo. você fecha os olhos elas entram pelos ouvidos, você tapa os ouvidos elas entram pela pele, quando você senta na sala de cinema nem adianta, foi o mordomo, é tarde demais. e tem ainda os trailers: pra cada filme visto você perde cinco, dez, que trailer é o pior de tudo, é o ápice do estraga-prazerismo — quer dizer, isso sem contar os clichês, o gênero, o problema com o tempo e o fato de que os filmes são todos iguais, começou você já sabe como acaba (se não souber é porque é bem daquele tipo que é feito pra acabar exatamente como você não achava que ia acabar , só que esse tipo você também já conhece, então dá na mesma), e não é que você seja esperto, não é mérito seu, é culpa dos filmes, que são todos iguais. mas o problema com o tempo, o problema com o tempo é que ele passa. mesmo o tempo do filme passa, apesar das interrupções, dos celulares que tocam, das pessoas que atendem, das pessoas que conversam dentro da sala mesmo com o som ensurdecedor da projeção (que hoje em dia as pessoas só não falam se não conseguirem, qualquer silenciozinho elas falam em cima, se o som titubear elas gritam, berram), mas também pra que prestar atenção se todo mundo já sabe como vai ser o filme — que perda de tempo. mas então o tempo: quando você já está na sala há uma hora, uma hora e pouco, começa a sentir que aquilo não pode durar muito mais (o cinema tem que ter outra sessão, o orçamento do filme acabou, a produtora cortou, extras só no dvd), se for mais longo que isso é pouco, e é exceção, mas não importa, porque do mesmo jeito, lá pelos dois terços do filme você sente, você sabe que não tem mais dois terços pela frente, só um terço, e isso é totalmente absurdo, na vida não tem nada disso, um terço, dois terços, três terços, quatro, não seria legal entrar num filme e ele não acabar nunca mais de passar? e não ter história, e não ter imagem nem som nem personagens nem tela nem cinema, e ninguém mais saber que é um filme a não ser você, você e eu? mas faz tempo que não dá, está cada vez mais difícil — esse é o problema com os trailers.



Esse texto foi publicado no plástico bolha nº29: download PDF

 

 

 






 

 


 

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