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Eu seria...

Mayra Lopes


Dos objetos inanimados, se pudesse escolher, acho que seria, talvez, um patinho de borracha numa banheira de espuma. Algo com aquela aparência amarela, plastificada e pueril. E alguém se sentaria, e conversaria comigo, e eu na minha inocente aparência , eu sorriria. E cuspiríamos pro alto como as estátuas de anjo, riríamos felizes e contentes. E me contaria seus segredos e eu sempre com aquele rosto sorridente, que alegra e intimida, que dá raiva. Seria tacada contra a parede azulejada, mas não sentiria mágoa e nem rancor daquela mão. Era uma reação compreensível. O seu companheiro diário, confidente, aquele com quem é compartilhada a alegria, se fere, e sua expressão continua imutável. Eu compartilho da raiva e me resigno ao ser jogado. Mas sei que no dia seguinte, estarei de volta à banheira, rindo abertamente. Se eu fosse de quarto, seria cama...Cama sem lençol, na beira da janela, desarrumada, com o edredom jogado, aos primeiros raios matinais. Acolheria com mil travesseiros quem se deita, e teria aquele cheiro de sono, cama e preguiça, misturado com o cheiro do dono em potencial, o do suor, e um cheiro de baunilha e rosas como um hálito fresco de dentes escovados ao se levantar de manhã e colônia. Se fosse interior, seria caixa. Não caixa de Pandora, que desperta somente todos os males. Caixa de lembranças, exalaria o aroma de flores secas dentro de livros de poema, conteria cartas de amor, fotos de paixões, cartas não mandadas e que permaneceriam para sempre num anonimato a que não foram destinadas. Teria papéis de bala, de bombons, pacotes vazios de camisinha, seria simples, uma caixa de sapatos. Traria muitas lágrimas, saudades, sorrisos diante de momentos embaraçosos do passado, esperança de um futuro melhor, pessimismo ante tanto sofrimento. Não seria nada barulhento .Nada que piscasse, ou que tivesse luzes. Não seria tecnológica. O telefone me estremece ao tocar. Se eu fosse gente, não seria outra senão Alice, menina curiosa, correndo atrás de coelho branco, crescendo e diminuindo ao ponto de não saber mais quem é, pois já não é a mesma de quando acordara, chorando como se as coisas não tivessem mais jeito. Tentando entrar pelo buraco da fechadura, sempre tentando entrar pelo buraco da fechadura; mas, às vezes, estando grande demais e, outras, por demasiado pequena para pegar a chave. Nunca consegue beber o chá (e é bom, porque não gosto de chá), falando incessantemente de sua gata, se confundindo e pra no fim, acordar e ver que era tudo sonho.

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº 3 : download PDF

 

 






 

 


 

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