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Lucas Viriato


A poexia de Nicolas Behr


Nicolas Behr nasceu em Cuiabá, em 1958. Aos 10 anos, mudou-se para a capital, onde vive até hoje. Em 1977 lançou em mimeógrafo Iogurte com farinha, seu primeiro livrinho que vendeu 8.000 exemplares de mão em mão. Em 1978 foi preso e processado pelo DOPS por “porte de material pornográfico”; no ano seguinte foi julgado e absolvido. Até 1980 publicou ainda 10 livrinhos mimeografados. Em 1982 ajudou a fundar o MOVE (Movimento Ecológico de Brasília). Em 2008 seu livro Laranja-Seleta: poesia escolhida, publicado pela Língua Geral, foi finalista do Prêmio Portugal Telecom de Literatura. Nesta entrevista ao Plástico Bolha, o fundador de Braxília conversa sobre sua trajetória e sobre poesia. 

 

Como começou a escrever poesia?


Em Brasília, 1975-1976, aos 16-17 anos. Já lia poesia, éramos bem engajados politicamente, líamos Fernando Pessoa, Maiakovski, Brecht, Oswald de Andrade, Drummond, João Cabral. Assinava a revista Escrita, em que tinha uma entrevista com o pessoal da Nuvem cigana, e falava do mimeógrafo, de vender livro na rua, de bar em bar. E, assim, em agosto de 1977, imprimi 200 exemplares do Iogurte com farinha: leia antes que azede, que foi meu best-seller, com uns 8.000 vendidos de mão em mão. Uma curiosidade: no ginásio, quando eu via algo escrito errado no meu livro de português, eu questionava a professora, e ela dizia: “ah, isso pode, sim. É licença poética”. Isso ficou no meu inconsciente. E acho que foi fundamental para me levar à poesia.

 

“Cante a sua aldeia e serás universal”. Essa frase de Tolstói é citada por você em seu DVD Braxília. Como definiria a relação entre o poeta e a cidade, ligação presente no seu trabalho?


Brasília é minha aldeia. E digo: Brasília precisa de mim. Esta cidade é muito estigmatizada por ser o centro do poder. E, no imaginário nacional, Brasília é uma cidade corrupta, corrompida, onde só tem pilantra e sanguessuga. Sim, tem. Mas tem também gente honesta e trabalhadora, a maioria. Brasília é minha obsessão poética. Os poetas querem resgatar a utopia. A Brasília original, orgulho do povo brasileiro. Brasília foi a maior realização coletiva do povo brasileiro, não me canso de repetir. Brasília um dia vai deixar de ser capital, como um dia foram Salvador e Rio de Janeiro. E a cidade passará a se chamar Braxília, com x mesmo. Já existe na cidade um movimento nativista, incomodado com a ideia da cidade-poder, cidade-capital, cidade dos políticos. Existe uma Brasília subterrânea, roqueira, criativa, poética. É Braxília. E se escreveu pouco sobre a cidade, por isso tudo que se escreve é a primeira vez. Um privilégio para poucos, nascer com uma cidade. E escrever sobre ela. Tento fugir do rótulo o poeta de Brasília e estou escrevendo agora sobre minha infância — A lenda do menino lambari — e rabiscando uns poemas eróticos — Meio seio.

 

Você diz no filme que a ideia de Braxília surgiu de um erro de digitação. O poeta é aquele que faz do erro o seu Eldorado?


É o click, é aquele momento mágico em que um erro pode virar um grande achado. E poeta pensa meio que ao contrário, pensa nas várias possibilidades da palavra, do som, do sentido. Poeta vive experimentando, tentando vencer as barreiras, sair da prisão poética que ele mesmo cria. Romper com seu estilo, essa limitação. No fundo, somos todos reféns de nós mesmos.

 

Você teve um poema musicado pelo grupo Legião Urbana. Como foram seus contatos com Renato Russo?


Foi uma grande honra ter uma letra minha num disco da Legião Urbana, com a música “Travessia do Eixão”, do Nonato Veras, um músico de Brasília. Conheci Renato Russo e todos os dias lamento que ele tenha se matado. Sim, tinha pressa em virar mito. E virou. Mas pagou com a vida. Vale a pena? Dar seu bem mais precioso, sua vida, em troca da eterna lembrança? Eu não era propriamente da turma, mas via os punks em vários locais, onde eu também vendia livrinhos. E em Brasília aconteceu um fenômeno curioso: o movimento punk começou de dentro pra fora, do centro pra periferia. Os primeiros punks de brasília eram filhos de professores da UNB que foram fazer mestrado na Inglaterra. E os filhos voltavam com discos e ideias na cabeça. Foi assim.

 

Você foi preso e acusado pela ditadura por escrever e publicar material pornográfico. Como foi ser considerado um poeta subversivo?


A polícia política da ditadura, o famigerado DOPS, queria me enquadrar na Lei de Segurança Nacional, mas não conseguiu. Pensavam que na minha casa tinha uma gráfica, com mimeógrafo e tudo o mais, que imprimia tudo que era folheto mimeografado na cidade, principalmente os do movimento estudantil. Como eu usava o mimeógrafo de colégios à noite, não tinha mimeógrafo em casa, que foi a primeira coisa que os agentes do DOPS perguntaram. Fui preso, paguei fiança e fui julgado no ano seguinte, e absolvido. O mesmo delegado do DOPS que me prendeu também prendeu Honestino Guimarães, ilustre desaparecido político de Brasília. Ele disse: “se fosse uns 5, 7 anos atrás, a gente sumia com você”. Por isso eu digo, não há glamour nenhum em viver sob uma ditatura, essa nossa tendência e mania de valorizar sempre o passado — “nos anos 1970 é que era bom”. Era nada, era péssimo. Não havia garantia nenhuma de que você voltaria vivo pra casa.

 

Qual foi a sua relação com a Geração Mimeógrafo? De que modo você acha que esses movimentos tem ocorrido hoje em dia, com a internet?


Os livrinhos mimeografados circularam, e muitos despareceram, fisicamente. Pois o papel era ruim, os livros eram toscos e ninguém fazia a menor ideia de que um dia esses livrinhos se transformariam em raridades. Houve muita troca de livrinhos pelos correios. Na verdade, o mimeógrafo era o blog dos dias de hoje. Mas só que blog você deleta; livrinho, não. Hoje tem a internet, esse meio revolucionário de comunicação. Mas a internet é apenas um novo meio, ainda não criou uma linguagem própria e nem sei se vai criar. O meu ditado é: vale o que está escrito. Não adianta colocar o poema piscando com várias cores no blog, pois se não comunicar, se não tiver invenção, nao há pisca-pisca que dê jeito.


Você diz que faz poesia de jovem para jovem. Qual o segredo para manter-se jovem na poesia?


Eu vou fazer 54 anos. “Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?” diz o verso do Drummond no poema os ombros suportam o mundo. Tenho filhos adolescentes e um entrando na idade adulta. Gosto e procuro o contato com a juventude, vou sempre a saraus, escolas e universidades. Participo de debates. Isso me reenergiza. Novamente, Drummond: “a razão está sempre com a mocidade”.


Você diz que o livro é uma parte sua, já que você o escreve, imprime e distribui. O poeta pode descobrir mecanismos não contemplados pelo mercado editorial tradicional?


Eu, particularmente, e isso é bem pessoal, tenho e faço questão de ter uma relação bem orgânica com o objeto livro, tanto que agora aprendi a diagramá-lo, através do InDesign. Gosto das possibilidades de contato que o livro me dá. O grande problema é mesmo a distribuição. Mesmo poeta com editora sofre esse problema. Fazer o livro chegar ao leitor, esse é o desafio. E com poesia isso é ainda mais difícil. O gênero mais praticado, a poesia, é o gênero menos lido, acredito. A poesia carrega a pecha de hermética, difícil, e o poeta traz ainda o mito romântico do louco, irresponsável, louco e doente.


Quais são as maiores influências na sua poesia?


Mario Quintana dizia: confluências, e não influências. A gente sempre lê os poetas que se parecem com a gente. Aí vai uma lista: Chacal, Leminski, Francisco Alvim, Cacaso... Todos poetas da minha geração



Esse texto foi publicado no plástico bolha nº30: download PDF

 

 

 






 

 


 

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