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Verão

Bruna Mitrano




Na calçada, ela e as crianças. Um calor de cozinhar lá dentro, o ventilador parou. O menor todo torto no colo, mosquito pega. Final do ano, ventilador de teto. Teto daquele jeito, vazamento na casa de cima. Os homens consertando. Corta a unha da menina, tesoura de costura. Copinho descartável entre as coxas, água oxigenada e amônia. O vizinho chega, pão e a margarina, foi rápido, de bicicleta. Caneca descascada no chão, café com leite, garrafa térmica amarelenta, café bom. Tira a nata que boia. Cheiro bom de café bom. O marido parece até que sente o cheiro de longe, tá molhado de mangueira, bebe café puro, de pé, copo americano. Sempre magro, o marido, ela não entende. O maior solta pipa. Céu colorido, vento bom. Os moleques da rua de trás cortam todo mundo, o maior xinga sozinho, ela grita ele, ele tem que comer, essa merda custa dinheiro. O maior acena e ela ri, um dente faltando, vai ao dentista qualquer dia, desdentada não consegue emprego, ela é boa de serviço. A espuma branca dentro do copo, ela esfrega na perna. A menina descoloriu o cabelo, faz sucesso, já namora. A gente cria filho pro mundo, a vizinha diz. Ela tem medo, Deus proteja, tanta desgraça. O menor dorme, mamadeira na mão, suco de groselha, pinga no peito. É grande pra mamadeira, não larga, vai ficar bicudo. Baixa o sol, a cigarra grita, hora dos cupins, corre pra fechar a janela. Suor. Escorre na frente da orelha, salpica o buço, mela o sovaco, molha até o cóccix. Cheiro de café, cheiro de suor. Final do ano, ventilador de teto.
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Esse texto foi publicado no plástico bolha nº32: download PDF

 

 

 






 

 


 

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