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Dobradinhas

Alice Sant'Anna & Domingos Guimaraens



CARNAL
Domingos Guimaraens

noite quente
onde nada te diz
tudo te sente
calor de lua
temperatura
dourada de céu preto


um corpo
multidão siamesa
de milhares de cabeças
onde a borda de mim toca
o centro da tua alma
ocupando as ruas que já foram mar
e que no resto do ano
derretem saldos comerciais


hoje não
noite quente
cheia dessa sensação de dia
te abraçando num contato
segredos de pele

 

verão em todos os poros
cada lágrima de sal
suor do encontro
abraço coletivo
multidão
em
êxtase


[conversamos longamente sobre o calor]
Alice Sant'Anna

conversamos longamente sobre o calor
depois caminhamos pelo bairro
apontando os prédios antigos
que não têm espaço para instalar
ar condicionado e mantêm a fachada
original enquanto os moradores esperam
dias melhores e dormem
na varanda ou não dormem
nada virando de um lado para o outro
na cama com um ventilador que gira e que só
quando mira a cama dá um sossego
e pensando bem é assim quase o tempo todo
uma metáfora barata da vida: esperar
o momento em que o ventilador aponta
para si e quando está a ponto de dar um refresco
já se sofre só de pensar que logo depois
é mais um longo tempo no hálito quente sem trégua
esse verão está ainda pior ou dizemos isso
toda vez e no verão seguinte
esquecemos e sentimos tudo de novo
pela primeira vez aqui costumava se dizer
que era a terra da garoa
agora o cabelo colado à testa a pele morna
sentamos de costas para o cemitério
comentamos sobre os jogos de inverno
um esporte em que se plana no ar antes
de enfim aterrissar na neve
talvez o verão já esteja no fim e não precise
mesmo comprar um ar condicionado
dessa vez o ventilador quebra
o galho vamos ver



Esse texto foi publicado no plástico bolha nº35: download PDF

 

 

 






 

 


 

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