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A MÃE DO MEDO

Zé McGill


“…The fear grows shadowy; and imagination, the enemy of men, the father of all terrors, unstimulated, sinks to rest in the dullness of exhausted emotion.”
(Joseph Conrad – Lord Jim)


Do ponto onde flutuava, a distância entre o bote salva-vidas e a terra firme parecia a mesma. Pablo calculava estar exatamente no meio do caminho entre um e outro e tinha apenas a cabeça pra fora d’água. Precisava escolher o destino e nadar o mais rápido que pudesse, sem olhar pra trás. Ele não conseguia enxergar o tubarão, que tinha o corpo imenso submerso na água agitada e esverdeada.


Ouvia os gritos desesperados dos companheiros de naufrágio, que se debatiam a poucos metros de distância, criando círculos de espuma ao redor de seus corpos e afastando para longe as pranchas de isopor e outros destroços flutuantes. Não viu o sangue, mas concluiu que Serginho e Lucas já haviam sido atacados e que os gritos eram, provavelmente, consequência da dor de um braço ou de uma perna arrancados pelos dentes cortantes do monstro faminto. O pânico se refletia na vontade de urinar, só que Pablo aprendeu, vendo filmes e documentários, que uma gota de mijo tem para o tubarão a serventia que um farol tem para o marinheiro perdido na noite escura. Precisava sair depressa da água.


Escolheu a direção da terra firme e executou as braçadas e pernadas mais frenéticas já registradas no histórico do seu nado de crawl, numa confirmação de que o medo é o motor mais potente que o corpo humano é capaz de fabricar. Ainda assim, a máxima velocidade que pudesse atingir dentro da água seria irrisória diante da potência natural daquela máquina de matar, com seu corpo em formato de míssil e aerodinâmica de carro de Fórmula 1. Estava sendo perseguido e, se olhasse para trás, veria a barbatana. Preferiu olhar pra frente, por mais que os azulejos parecessem ainda muito distantes. Pablo podia sentir a sombra, o calor de uma presença se aproximando de seus pés a cada chute que lançava contra a superfície. Em certo ponto, julgou ter tocado a ponta do dedão do pé contra o nariz áspero do bicho, e soltou um grito subaquático de terror que soou metálico e abafado, e que só ele conseguiu escutar.


O sol reluzia nas pequenas ondas turbulentas e fazia arder ainda mais os olhos já fustigados pela ação do cloro. Em sua cegueira parcial, o cumprimento certeiro da rota estava prejudicado e Pablo acabou desviando do curso da escada de ferro. O horror, a falta de ar e os batimentos cardíacos acelerados o impediram de notar a presença de um helicóptero que sobrevoava a região e que possivelmente estaria ali para resgatar os sobreviventes do naufrágio.


Agora faltava pouco. Ali já dava pé, mas o menino não conseguia parar de imaginar a enorme mandíbula aberta, os dentes serrados à mostra, os olhos negros revirados do tubarão que se preparava para morder. Parar de nadar estava fora de cogitação: Pablo fechou os olhos e reuniu as últimas energias necessárias para a arrancada final.


Quando finalmente alcançou a borda, saltou pra fora d’água num movimento urgente, recolhendo os pés com rapidez assim que o resto do corpo pousou sobre a terra firme. Tinha escapado por um triz.


Era hora do almoço e a piscina do clube estava vazia. Somente os amigos Lucas e Serginho brincavam na água, dentro do pequeno bote inflável. Pablo estava exausto e respirava com dificuldade, emitindo do peito um chiado asmático enquanto olhava em volta para ter a certeza de que ninguém havia testemunhado a sua aventura.

 



Esse texto foi publicado no plástico bolha nº36: download PDF

 

 

 






 

 


 

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