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Dobradinhas

Alice Sant'Anna & Gregório Duvivier



[conheci A. na gávea fica lá no alto depois]
Gregório Duvivier

conheci A. na gávea fica lá no alto depois
do posto BR dizíamos para os taxistas e para
os curiosos parece que a gente cresceu na mesma
casa às vezes eu penso que nossos pais se parecem
,
um dia A. foi lá em casa e tocava dream
a little dream of me no macbook velhinho você
pousou a planta dos seus pés no peito dos meus
pés e a gente ia pra lá e pra cá isso foi o ponto
alto dos meus anos dois mil e pouco não sei
o ano exato mas sei que era domingo porque são tão
poucos os domingos que prestam tão poucos.
,
passaram-se alguns anos não sei se três ou sete
mas sei que era na gávea mas agora embaixo
da gávea e no alto da casa do lolô a gente subiu
no barranco e eu disse parece que a gente tá
esperando alguma coisa e você disse é a fera
e eu que fera? e você na selva mas talvez tenha
sido eu ou talvez ninguém tenha dito nada e eu esteja
inventando isso deliberadamente é um direito meu
,
hoje a gente é amigo de verdade a tal ponto que
a gente se desenha sem se preocupar se vai
ficar bonito ou parecido de vez em quando
alguém esbarra na fera sem querer (querendo?)
e vê que na verdade não passa de um gato laranja
daqueles que não arranham mas também não fogem
só tem que tomar cuidado com a janela aberta

.

[no sonho se bem me lembro]
Alice Sant'Anna

no sonho se bem me lembro
você me mostra a sua casa nova
uma casa no alto gávea toda branca sem móveis
sem mesa ou cama sem janela nem banheiro
uma casa toda recortada em retângulos
nas paredes e no chão com muitos andares
no sonho não precisa ter cama
porque em sonho não se dorme nem se sente
fome no sonho você se prepara e pula
para o andar debaixo
mas logo antes ajeito o seu cabelo
e esse movimento que não era esperado
faz com que você caia e bata a cabeça na quina
é um sonho mas no sonho você se machuca
a mão na cabeça e a expressão de dor
quando tira a mão há um buraco
um furo na cabeça perto da orelha
de onde não sai sangue ou galo
ficamos sem saber se o furo na cabeça é melhor
que hematoma hemorragia qualquer coisa
para curar a falta de assunto te digo
vi um filme durante o carnaval
enquanto vez ou outra olhava pela janela
pra ver gente passando tanta gente
numa espécie de sonho só que bem mais improvável
que o sonho do buraco na cabeça
no filme te digo a personagem
de tão elegante beira o detestável
uma mulher sozinha que leva para passear
o seu olhar assustado
no filme ou no sonho te pergunto se a memória
é algo que se tem ou que já se perdeu



Esse texto foi publicado no plástico bolha nº36: download PDF

 

 

 






 

 


 

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