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As revoluções

Otávio Campos

 

                 depois da Laura

 

Você pode estar agora
pensando na língua que eles falam chegando
à conclusão que eles falam a mesma língua que você fala
você pode pensar que sua mão de repente não serve para pegar
agarrar uma coisa pequena quem sabe
a fuligem a palavra lamaçal
meter na bolsa uma palavra dessas qualquer
você pode imaginar a língua que eles falam lambendo
a minha pele por seis meses e meio, a língua que eles falam
ovulando a nossa dislexia, a sintaxe quebrada e os sinais opostos
então a minha pele vermelha e negra árida como a sua pele
tremendo ao contato da língua deles
você pode estar agora pensando na sua pele
em todas as fronteiras que atravessaram a sua pele toda negra
o gosto ocre da língua estrangeira no primeiro encontro
ou me imaginar de repente chegando por uma rua à esquerda
trabalhando o acaso das pequenas superstições,
os detalhes azuis dos meus óculos redondos
os detalhes azuis das pedras portuguesas
os processos de escrita de certos nomes
nos mantendo ocupados por dias inteiros
como se encontrássemos um revólver na gaveta antiga
e discutíssemos Deus com o revólver na cabeça

 



Esse texto foi publicado no plástico bolha nº38: download PDF

 

 

 






 

 


 

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