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MISANTROPICAL UM

Dimitri Rebello & Victor Heringer


[Dimitri] “Todo mundo queria mesmo era fazer música”, dizia o Victor. E ele fez (embora sempre acrescentando: “o gênio musical da família é meu irmão Eduardo”). Entre 2011 e 2013, mantivemos este projeto de convivência sonora batizado (por ele) de ‘misantropicalistas’: basicamente, eu enviava pro Victor um monte de áudios desconexos — esboços, rascunhos de canções, trechos de diário e anotações de sonho —, tudo gravado num celular bem tosco; ele ouvia os trechos e os manipulava em editores digitais, criando colagens sonoras. Nas suas próprias palavras: “eu só reajusto, copio, colo e estrago”. Os textos aqui apresentados, inéditos, são as letras das canções-colagens do nosso (jamais lançado) álbum ‘misantropical um’.

 

[Victor] A gente faz esse negócio, treco, troço há mais de um ano (é?, !). Dimitri diz: “Victor, toma este som”, eu vou lá e destruo, reformulo, perturbo o som. Em geral é a voz dele, eu vou conversando com ela e, de tanto ouvir o som, o som fica gravado na minha memória. A grande ironia do misantropical é que só existe porque há comunicação e afeto. Daí que, finalmente, andando numa rua paulistana (na mesma cidade em que nos apresentamos pela primeira vez, vide fotos, vide vídeo*) descobrimos que o treco, troço, coiso é um ato duradouro de “convivência sonora”. Por isso o ruído é nosso(,) amigo. Além do mais, é divertido à beça.

 

1. afinação


— oi
— oi


alô, dimitri? é o victor
aqui a gente começa


2. carta aos ilhados


ilhado entre o som e o mar
sol som sonho


o poeta fala fala
mas quem diz é o som
o cantor nunca se cala
mas quem diz é o som

 

3. transe da humanidade


“o orangotango da malásia
com 120 quilos
é o primata que mais se assemelha ao homem”


(paredes, enfim
fundos falsos
e etc.)


mil homens mais


é o fim do espaço
é o fim do tempo
e eu me sinto bem


mil mais mil


e eu me sinto bem


4. nota em tempos eletrônicos


refúgio
abrigo
proteção


quem canta
comigo
é meu irmão


01100001 01101101 01101001 01111010 01100001
01100100 01100101 00100000 11101001 00100000
01100011 01100001 01110010 01101110 01100101
00100000 01100101 00100000 01101111 01110011
01110011 01101111


(amizade é carne e osso)

 

5. love song

 

all those love songs

you wrote...

 

were you drunk?

 

6. larará o tempo

dezembro. 2008. quinta-feira. 11. hahaha.

14 minutos e 29 segundos / abril de 2009

é janeiro... são duas e trinta e quatro... dia 18 eu acho

6 de setembro 2010

 

 

estamos em primeiro de setembro de 2010

janeiro 2009

pouquinho de fevereiro, sei lá, 12, de 2009

11 de março de 2011

 

sete e dez da manhã / segunda-feira / dia 10 de

maio, eu acho

logo depois do aniversário da silvia, do show do

circo, do dia das mães, etc.

e

eu sonhei com essa música

 

larará

 

7. sopro sem retorno

 

só raiou o sol

velas ao vento

 

pelo vento do sopro

e não pelo sopro do vento

 

vamos navegar

 

8. celeste II

(tudo vai mal

mas tudo bem)

 

9. (ônus track) acidente no baile

 

[*no www.diahum.com/albumdefigurinhas/portfolio/misantropicalismo/ você pode ouvir trechos da única e histórica apresentação ao vivo dos intrépidos misantropicalistas, na XXX Bienal de São Paulo (!), feita a convite da Pipa Musical e transmitida para todo o mundo pela Mobile Radio, além de dois teasers em vídeo e da faixa ‘não existe silêncio’, que produzimos para a revista-disco ‘bliss não tem bis’. o ruído é nosso(,) amigo.].

 

 



Esse texto foi publicado no plástico bolha nº39: download PDF

 

 

 

 






 

 


 

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