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por Rosana Khol Bines

 

Para quem faz da leitura um ofício diário, o título de qualquer coisa jamais passa desapercebido. Afinal, é o primeiro significante estampado no texto e um lugar inaugural de produção de sentidos. Lemos já a partir do título, construindo enredos imaginários que o virar das páginas irá comprovar ou desdizer. O prazer do texto está muitas vezes associado à fricção desta história inventada com os percursos de leitura que o próprio texto nos vai sugerindo. Seja porque a narrativa confirma nossas projeções de sentido, seja porque, ao contrário, as frustra. Afinal, o que faz a delícia dos contos de fada é oferecer ao leitor exatamente o final feliz que ele espera, ao passo que a satisfação do leitor de uma boa trama policial é comprovar que estava absolutamente equivocado em suas previsões. Quem é o culpado? Se o leitor descobre a resposta antes do momento em que o autor escolhe revelá-la, não se sente recompensado. A recompensa está em perceber que foi enganado pelas artimanhas do autor, que soube habilmente desviar a atenção do leitor para tramas e cenários paralelos, de forma que o crime fosse cometido longe do seu olhar vigilante. Acho que Umberto Eco aprovaria a máxima de que o leitor é feliz quando se torna voluntariamente uma vítima do texto.

Posso afirmar, sem sombra de dúvida, que fui vítima do título que dá nome a esta coluna - "Aos alunos, com carinho". Esta singela expressão, que deveria guiar-me sem demora até o computador para escrever uma mensagem dirigida a você, aluno-leitor, acabou me empurrando, por processos associativos, até a locadora de vídeo do Cineclube Estação Botafogo, em busca do legendário filme "Ao mestre, com carinho". O ator negro Sidney Poitier está imbatível no papel-título do jovem professor que enfrenta o preconceito de alunos indisciplinados em uma escola no bairro operário de East End, em Londres, nos anos 60. Com um misto de rigor e afeto, sem jamais ceder à popularidade fácil, o professor vai quebrando devagar as resistências, para fazer da sala de aula um espaço onde a vida acontece de forma arriscada, porque lá estão todos expostos à ignorância e à dúvida que estão na base de todo o projeto de conhecimento. De forma generosa, o roteiro dá oportunidade para que cada um dos seus personagens pise na bola ao menos uma vez e também avance um passo na direção da auto- avaliação e do amadurecimento. O filme é uma Aula, no sentido que Barthes dá ao termo: situação de luta dos discursos, deslocamento permanente de papéis, cena que faz girar os saberes. Estar em aula com vocês, queridos alunos, compartilhando leituras num jogo de inteligência e afeto, é ainda melhor do que assistir a um filme antigo com Sidney Poitier.

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº 4 : download PDF

 

 






 

 


 

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