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Lucas Viriato e Pedro Neves


Uma atividade imaginativa

 

 

Tradutora da bem-sucedida série Harry Potter, Lia Wyler revela detalhes de seu ofício

Curiosidade. Esta deve ser a maior virtude de um tradutor. O conselho é dado por Lia Wyler, um dos nomes mais interessados pelo assunto no país. Além de assinar a tradução de toda a série Harry Potter, ela também publicou "Línguas, poetas e bacharéis: uma crônica da tradução no Brasil", em que estuda a contribuição da tradução para a cultura brasileira. Nesta entrevista exclusiva, Lia fala sobre a profissão e dá conselhos para os estudantes da área.

Qual deve ser a maior qualidade de um tradutor? Que características deve ter um jovem que se interessa pela profissão?

Acho que a característica mais forte em um tradutor " que para muitos pode não ser uma qualidade " é a curiosidade por tudo e por todos, a pura fruição da vida em toda a sua complexidade, sem idéias preconcebidas. É desse acervo gradualmente acumulado desde a infância que o tradutor irá se socorrer quando estiver pesquisando e traduzindo. Traduzir não é apenas uma atividade técnica é primordialmente uma atividade imaginativa.

Fale um pouco sobre as dificuldades de exercer este ofício no Brasil.

A maior dificuldade é a incompreensão abissal que cerca a tradução em nosso país, incompreensão de que partilham leitores, editores e outros clientes de traduções. Desde que elegemos um presidente da República que não se mete a falar línguas estrangeiras como seus antecessores, no entanto, a tradução começou a merecer as atenções da imprensa, o que já é um primeiro passo para o esclarecimento geral. Outra dificuldade é a inexistência de uma regulamentação para a profissão, ou seja, não há pré-requisitos para o exercício da profissão. Isso deixa o mercado aberto para gente estudiosa e gente malandra, uma vez que a clientela do tradutor não tem capacidade de discernir o que é bom e o que é mau em matéria de tradução. Uma terceira dificuldade é a falta de dicionários bilíngües atualizados e volumosos que se equiparem aos dicionários monolíngües brasileiros e estrangeiros, o que gera uma enorme perda de tempo em pesquisas e adivinhações - é, com o tempo, o tradutor se torna presciente.

Como foi a experiência de traduzir a série "Harry Potter"? Há muita pressão (por parte da editora e dos fãs) por cada novo número?

Tem sido uma experiência diferente, porque fundamentalmente lúdica. Não é todo tradutor que tem autorização do autor para recriar os nomes que ele inventou, nem todo tradutor que pode afirmar que se diverte enquanto trabalha, que volta a ser criança. Eu gostaria, no entanto de ter sabido, desde o início, que seria uma série, gostaria de ter tido prazos maiores para trabalhar, de não ser pressionada pelos detentores dos direitos autorais que transformaram a série em um empreendimento multimídia de amplitude mundial, estimulando uma absurda pressão dos fãs. Tenho sorte: os que me procuram são sempre muito simpáticos e Editora Rocco se encarrega dos reclamões que gritam ser erro de tradução toda palavra que desconhecem, como o que achou que eu devia ter escrito "barulho" em vez de "marulho".

Qual seria o seu número predileto da série infanto-juvenil?

Gosto muito do Prisioneiro de Azkaban.

Existe um tipo de tradução mais trabalhosa?

Claro que existe. Há um número incrível de subgêneros de literatura de massa, por exemplo, cujos textos vão do mais elementar ao virtuosístico, momento em que a obra transita para a chamada literatura culta. Traduzir aquelas 3.500 palavras que a imprensa utiliza é rápido e indolor, traduzir um autor que enriquece seu texto com sucessivas imagens, por vezes absolutamente inéditas, é trabalho para muitas horas de reflexão.

A senhora também trabalha (ou já trabalhou) com legendagem de filmes e programas?

Não, mas já trabalhei como intérprete consecutiva para um grupo de americanos que investiram em um programa beneficente e vieram ao Brasil pedir contas do dinheiro enviado. Não foi fácil cinturar as perguntas incisivas e as respostas evasivas.

Fale, em linhas gerais, sobre a sua carreira e seu trabalho na PUC. Como se decidiu pela tradução?

Eu ainda sou do tempo em que ninguém decidia ser tradutor, as circunstâncias é que o empurravam nessa direção. O único curso de tradução que havia na década de setenta era o do prof. Daniel Brilhante de Brito, que formou um grande número de excelentes tradutores. O candidato a tradutor só precisava dominar o português e uma língua estrangeira, o restante ele aprendia traduzindo, cometendo seus erros e comemorando seus acertos. Já fiz traduções técnicas em várias áreas das ciências humanas e sociais. Hoje trabalho predominantemente para editoras, traduzindo livros de literatura culta e de massa, e ultimamente um grande número de livros para jovens. Formei-me em tradução pela PUC, após dez anos de atividade no mercado, fiz mestrado na Eco-UFRJ e cursei o doutorado na USP. Não tenho uma carreira docente, comecei tarde demais, mas uma vez por ano dou aulas de Ficção de Consumo no Curso de Especialização em Tradução aqui na PUC. Gosto muito de discutir e analisar traduções com meus colegas, presentes ou futuros, tanto que no restante do ano organizo em minha casa oficinas de tradução para um número restrito de participantes. Paixão mesmo tenho pela história da tradução no Brasil, mas é difícil conciliar a vida de tradutor, um profissional que ganha por produção, com a de pesquisador. Mesmo assim publiquei um livro Línguas, poetas e bacharéis: uma crônica da tradução no Brasil em que não conto piadas nem aponto erros de tradutores, falo do muito que a tradução tem contribuído para a cultura brasileira.

A senhora gostaria de deixar algum recado para nossos leitores?

Eu acrescentaria para os que pensam se formar em tradução: quando forem escolher uma carreira, escolham uma com que tenham afinidade, da qual possam se desincumbir naturalmente, porque ao longo de qualquer carreira sempre haverá desafios que exigirão todo o seu esforço.

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº 4 : download PDF

 

 

 






 

 


 

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