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Débora de Marcos

Débora está à procura do amor de sua vida. Ela é a típica pessoa organizada que faz compras mensalmente e leva ao supermercado a lista de compras impressa no computador.

Marcos também procura a mulher ideal, mas não vai muito ao supermercado. Ele freqüenta mais as lojas de conveniências de postos de gasolina e farmácias no interior de shopping centers. Porém ao ver o anúncio na TV do mais novo cereal matinal, resolveu se locomover até o supermercado para adquirir a novidade.

Ele estacionou no B2. Ela preferiu não confiar no bom tempo e estacionou nas vagas do subsolo.

Débora, experiente, tem seu próprio roteiro de compras: vai direto às seções desejadas, sem nunca dar um passo além do necessário. Marcos, mais perdido do que nunca, não sabe diferenciar a seção de jardinagem da seção dos refrigerados.

Foi então que o imprevisível aconteceu, bem na seção de material de limpeza. Débora estava procurando sua marca de amaciante, quando Marcos, vindo do vão central, entrou no mesmo corredor. Ele andava com pressa, cansado daquele labirinto. Ela procurava com atenção. E a cada minuto os dois se aproximavam mais.

Naquele instante de segundo os planetas de uma galáxia desconhecida se alinharam, sete mil pessoas falaram a palavra “sim” ao mesmo tempo, um urso panda nasceu em um laboratório na China e Marcos passou por traz de Débora quando esta se abaixou para pegar o amaciante.
Os dois ficaram a uma distância de apenas 75 cm e nunca mais se viram. Débora morreu em um acidente de carro 17 anos depois, e Marcos morreu de câncer aos 73 anos, sem nunca saberem que tinham nascido um para o outro.

Talvez se os supermercados não botassem as marcas mais conhecidas nas prateleiras mais baixas, tudo tivesse sido diferente. Ou, então, se o amaciante tivesse escorregado das mãos de Débora, acarretando assim um encontro. Mas Débora malhava e tinha pulso firme. Ainda se o chão estivesse úmido e Marcos tivesse escorregado. Mas o ar condicionado estava forte e secara rapidamente a umidade do piso recém lavado. Porém, não é de possibilidades que a vida é feita.

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº 4 : download PDF

 

 






 

 


 

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