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Para tirar o livro da estante
Nova cátedra da universidade investe na pesquisa para a formação de leitores




"Acham que criar bibliotecas é incentivar a leitura. Mas não se fala em tirar o livro da estante, não se pensa sobre a recepção do texto, sobre o lugar do leitor", alerta Eliana Yunes, professora do departamento de Letras e atual coordenadora do Decanato do CTCH. Com mais de duas décadas de trabalho dedicadas a uma extensa pesquisa sobre a formação do leitor, ela finalmente conseguiu realizar uma de suas metas profissionais: criar na PUC uma Cátedra de Leitura, em parceria com a Unesco.

A idéia de Eliana é fazer da nova Cátedra um lugar para a pesquisa interdisciplinar de reflexão e promoção da leitura. Graças aos apoios da Unesco e da Finep, o projeto já conta com vinte mil livros em seu acervo e computadores equipados com um moderno software, desenvolvido para programas de promoção da leitura. Só falta encontrar um espaço físico na Universidade. Por enquanto, o material está guardado no antigo almoxarifado, perto do Bandejão.

A nova Cátedra será inspirada pelo bem-sucedido Proler, programa idealizado por ela e o ex-professor da PUC Affonso Romano de Sant’anna, que estimulou a leitura em mais de 600 municípios brasileiros, entre 1992 e 1996, quando teve a verba cortada pelo então ministro da Cultura, Francisco Weffort. O programa previa um cronograma de dez anos de ações, que incluíam discussões de temas ligados à sociedade e cultura de cada local. Tudo com a ajuda de voluntários e professores. No México, um programa nacional nos mesmos moldes do Proler foi implementado há oito anos com bastante sucesso. A própria Eliana é uma consultora especial do projeto.

A professora começou a se interessar pelo assunto quando era coordenadora do ciclo básico no Colégio Santo Inácio e tentou entender por que a maioria dos alunos, crianças que gostavam de ler, parava de ler em determinada idade. "Entre as causas do desapego à leitura, a mais grave é que a experiência deixa de ser partilhada. Os pais acham que os filhos podem ler sozinhos. Sem leitura compartilhada, não tem formação de crítica. A leitura passa, então, a ser uma prestação de contas escolar", explica.

Além de chamar a atenção para a necessidade de desescolarizar a leitura, Eliana assinala que os próprios professores do Ensino Fundamental não estão preparados para incentivar a leitura. "Muitos não lêem, inclusive. Não é somente um problema escolar, é uma questão social. Não falo apenas da leitura de livros, mas da leitura do mundo. Um dos meus objetivos é estudar e analisar como as pessoas lêem o mundo. Você só pode escrever depois que consegue decodificar outras linguagens. A leitura antecede o livro. E tudo é linguagem...", assinala Eliana, que pretende, em projetos como a nova Cátedra, dar outra dimensão e significado ao hábito de ler.
Para isso, contará com o apoio de professores do departamento de Artes e Educação, já que a idéia inicial é usar esse intercâmbio com outras disciplinas da melhor forma possível. "A interdisciplinaridade é também um símbolo da descoberta da subjetividade. Quando se começa a ler, começamos a desconfiar que o mundo não é plano. O ato de ler traz uma série de questões agregadas, que falam de ética, tolerância e inclusão", analisa.

Depois de três anos de batalha, a professora Eliana Yunes conseguiu o apoio da Unesco para viabilizar o projeto de incentivo e promoção da leituraNão se pode pensar na leitura como panacéa. Mas, de fato, se não nos livra dos males da desilusão, da injustiça, do absurdo pessoal e social com que às vezes nos defrontamos, ela pode trazer o conforto de conhecer as armações e o jogo - que a leitura tão bem desvela, ficcionalmente - e abrir os olhos para as maravilhas da criação humana, seus saberes, seu engenho e sua arte.

Para mais informações sobre a Cátedra Unesco de Leitura ligue para 3527-1021 ou escreva para reler@rdc.puc-rio.br

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº 5 : download PDF

 

 






 

 


 

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