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O Bosque

por Henrrique Meirelles

Ilustração:
Eduardo Cidade




Chegou a hora do despertar, chegou a hora. Disse ela decidida, tomando nas mãos a pesada caixa de mármore negro. Saiu pela porta de madeira rumo ao bosque, escuro e pulsando de sede de vida do outro lado do campo. Seguiu sem medo de nada. Tudo ali era parte dela e ela era parte de tudo que ali vivia. Chegando à clareira, colocou a caixa dentro do círculo, sentou e esperou. Não havia sequer um inseto por perto, o que fazia do silêncio o som mais alto do mundo... Ecoando nas árvores mortas, vibrando nas árvores vivas, o silêncio doía. Então, por trás das nuvens roxas, ela surgiu crescente, branca e serena, como uma sacerdotisa. Mal olhou para o céu e, como um milagre qualquer, sua primeira lágrima escorreu refletindo as sete cores. Sem pensar duas vezes, caminhou gelada até a caixa e retirou com todo cuidado a sua flauta. Mais uma lágrima, mais sete cores de encontro à terra. Assim, pôs-se a tocar - mesmo sem saber como - toda e qualquer nota. Notas brotavam de sua boca, notas voavam floresta adentro. Aquilo era a sua vida, aquela era a sua arte. Uma arte que trazia vida às flores e às árvores. Em cada nota uma semente, em cada semente cores infinitas. Aos poucos, a lua brilhava cada vez mais e, também aos poucos, um a um, os vaga-lumes foram surgindo. Não demorou muito até as borboletas, as fadas e os duendes surgirem para a celebração. Mas nada a emocionou tanto quanto aquele unicórnio que, tímido e branco como a lua, a observava de longe com uma rosa na boca. A melodia já estava no auge, luzes brilhavam por toda a clareira. Ela ouvia tambores. Ela ouvia cordas. Rodava, rodava e rodava. Queria aquele sentimento para sempre. Rodava, rodava e rodava. E, quando não mais podia suportar o peso de seu corpo, sentiu-se levitar em espiral. E naquela espiral permaneceu até o sol bater de leve em seu rosto. Ao despertar, olhou em volta de si mesma e percebeu: não havia mais lua, não havia mais fadas, duendes ou vaga-lumes. Mas não ousou desacreditar... E sorriu ao ver repousando, ao lado da caixa de mármore negro, uma linda rosa vermelha.

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº 5 : download PDF

 

 






 

 


 

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