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por Érica Rodrigues
Professora de língua portuguesa e lingüística

 

Sempre que me vejo em apuros para escrever um texto, começo a abrir todos os livros de poesia que tenho em casa, buscando um verso, uma palavra que me inspire — como se os livros de poesia fossem manuais de auto-ajuda... Para escrever este texto, o processo foi o mesmo, um verdadeiro garimpo nos livros. De repente, uma frase salta de uma página de Manoel de Barros: "Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições."

Essa frase me resgata da inércia diante da folha em branco e me traz de volta lembranças de quando ingressei na faculdade de Letras, há 18 anos. Foi o momento em que mais fortemente tive de lidar com minhas imperfeições. Sentia que tudo me faltava – leituras, experiências, jogo de cintura. No contato com os outros alunos, fui encontrando parceiros dessa angústia inicial e, juntos, prosseguimos abraçados às nossas incompletudes. Quando terminei a graduação e comecei o mestrado, o mesmo sentimento me seqüestrou. Lá estava eu, mais uma vez refém da imperfeição. Uma dor de estômago a cada prova, a cada trabalho, a cada seminário. Tudo parecia tão distante do ideal... Não desisti (embora em vários momentos tenha considerado essa possibilidade). Prossegui, também com a ajuda dos meus colegas de turma. No doutorado, já professora da PUC com bons anos de experiência, me dei conta que a tal imperfeição não ia desgrudar nunca mais. E comecei a pensar que o melhor a fazer era ir aprendendo a conviver com ela, de forma mais tranqüila. Descobri que é bom se saber imperfeito, pois isso nos move na direção da busca do melhor, do aprendizado contínuo, nos torna mais tolerantes com as falhas dos outros.

Nos últimos tempos, tenho visto muito aluno angustiado com o fato de não dar conta de tudo, de não entender tudo, de não conseguir escrever o texto perfeito. Fico preocupada e, ao mesmo tempo, feliz com essa situação. Preocupada porque, diante dessa angústia, alguns (poucos, felizmente) têm optado pelo caminho da displicência, da falta de cuidado, do pouco caso. Esse caminho é muito perigoso; leva gradativamente ao desaparecimento da imperfeição. E pode fazer com que muitas pessoas talentosas, interessantes, deixem de explorar seu potencial. Feliz porque a angústia também tem feito com que vários alunos formem grupos de estudo, mergulhem nos livros da biblioteca, procurem os professores nos horários de atendimento – uma opção pela troca, pelo aprender. Espero, sinceramente, que este tipo de atitude se espalhe e contamine todos vocês. Que a imperfeição permaneça!

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº 6 : download PDF

 

 






 

 


 

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