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Sorria, você não está sendo filmado

Camila Justino


Levantou da mesa com classe. Muita classe, o sorriso mortificado, não sabia nem mais ficar séria. Aprendeu a conseguir tudo com um sorriso, podia conquistar o mundo com ele. Aprendeu também que tudo se perde com um sorriso, e até seu sofrimento era estampado com um sorriso.


- Com licença eu já volto.

Todos da mesa retribuíram com um sorriso, claro que te damos licença querida, mas volte logo, não se perca na volta. Caíram na gargalhada, mas que pessoas espirituosas eram seus amigos e seu marido. Eram realmente pessoas muito sorridentes. Trocavam sorrisos o tempo todo. Eram as pessoas mais felizes e satisfeitas daquele ambiente.

Ela foi se afastando vagarosamente da mesa em direção ao toalete, cruzou com o garçom e sorriu. O garçom retribuiu sorrindo também; por mais que a vida ali fora estivesse um pouco dura, aprendeu que da rua para dentro daquele restaurante o mundo tinha que ser feliz. Não importava, era a ordem do patrão, que também sorria para todos os clientes, por mais que tivesse acabado de saber que a sua esposa estava tendo um caso com um deles, casado com a proprietária do ateliê ao lado.

Ela continuou o percurso, cruzou com o dono do restaurante, velho conhecido, e trocaram sorrisos. Porém não parou para conversa, começou a apertar o passo, o toalete não era tão perto assim, precisava chegar logo, se sentia pesada. Uma criança cruzou correndo as suas pernas perfeitas, Ela abaixou a cabeça e sorriu para a criança com a boca suja de molho de tomate. Sorriu. Que gracinha. Nojentinha, mas bonitinha. A criança olhou séria, muito séria para a proprietária daquelas imensas pernas que atrapalhavam a passagem. E ainda antipática pensou, fazer o quê? Passou por cima e continuou seu caminho sorrindo. Finalmente o toalete.

Enquanto isso, na mesa, o marido e mais seus casais de amigos falavam dos filhos crescendo, da aula de natação do Pedro Henrique Júnior, da casa recém-comprada em Búzios, sempre sorrindo. Eram pessoas bem resolvidas e felizes. Falavam da política um absurdo, da miséria uma tristeza, da violência não tem mais jeito. Nessa hora continham seus sorrisos, disfarçavam, eram obrigados a ficar sérios, e o silêncio pairou a mesa. Pedro Henrique se lembrou do seu nome mencionado num escândalo de corrupção e Anna Clara pensou no peito do encanador. Mas foram só pensamentos distantes e involuntários. Sorriram novamente e começaram a falar do reveillon, a gente estava pensando em Fernando de Noronha, já o outro casal disse que esse ano não iam ficar no Brasil.

Ela entrou no banheiro e amarrou o cabelo, que tinha sido escovado por um bom tempo no salão. Respirou fundo, curvou-se e colocou seus delicados dedos na garganta. Começou a roçar o esmalte vermelho goela abaixo e ali foi se desfazendo de seu sorriso com certa dificuldade, já que estava tão acostumada com aquele formato de estado o dia inteiro, não estado de espírito. E foi indo pelo vaso sanitário todo aquele risoto recomendado pela casa, imagina, Ela não faz regime nenhum, come de tudo, as amigas impressionavam-se. Foi-se o risoto e um pouquinho do carpaccio, entradinha leve. Tirou suas delicadas mãos da boca e deu descarga, respirou aliviada e enxugou as lágrimas, que desceram não por tristeza, mas por certo esforço que o ritual exigia. Lavou as mãos, o esmalte importado continuava intacto. Enxugou bem as mãos para depois soltar o cabelo, que não podia entrar em contato com uma gota sequer de água. Afinal, foram horas para conseguir aquele cabelo. Olhou para o espelho e levantou a blusa levemente. Sorriu, era de se apreciar uma mulher daquela idade sem nenhuma barriga.

Saiu do banheiro e encontrou uma senhora com muito pó-de-arroz na fila e sorriu para aquela pobre criatura, nossa que velha com perfume horroroso. Voltou para a mesa, percorrendo o mesmo caminho da ida, encontrou o garçom e trocaram sorrisos, já eram conhecidos. Chegou na mesa e graças a Deus que não tinha encontrado aquela criancinha sujinha de novo. Que bom querida, pensei que tivesse fugido. Imagina se eu ia deixar meu maridinho sozinho aqui. Sentou e deu um beijo-estalinho no marido e depois sorriu para todos que retribuíram sorrindo.

Falaram de algumas coisas mais. Sempre sorrindo e combinaram de semana que vem, talvez, se houver tempo, irem para Itaipava, na casa do Carlos Eduardo. Mas iam se falar durante a semana, já estava tarde e tinham que ir para casa, a babá deve estar deixando a Anna Carolina vendo televisão até agora.
Levantaram-se. Despediram-se. Todos sorrindo, satisfeitos com a vida. Trocaram beijos, sutis, cordiais e delicados.
Foram todos para casa. Foram para casa chorar.

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº 6 : download PDF

 

 






 

 


 

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