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por Helena Hawad
Professora de língua portuguesa e lingüística


O filme A marcha dos pingüins me fez pensar quanto nós, humanos, nascemos incompletos. Tudo que um pingüim precisa saber para ser um pingüim já nasce com ele. Ele vai mergulhar e nadar, se alimentar de peixes, fugir das focas e, quando chegar o tempo certo, vai acasalar e cuidar do filhote, exatamente como seus ancestrais têm feito há milhares de gerações, sem que ninguém precise lhe ensinar nada. É como diz Rubem Alves a respeito das vespas: educação perfeita; na verdade, educação nenhuma. Já nós...

O que é preciso saber para ser humano? Ao contrário de pingüins e vespas, não temos uma resposta única para essa pergunta, nem nascemos dotados de uma. Respondemos a ela com a cultura que produzimos. É ainda Rubem Alves quem aponta (num livrinho delicioso chamado Conversas com quem gosta de ensinar) que educar é passar adiante, para a próxima geração, uma forma de ser humano.

O processo exige contato e troca. Ao longo dele, o aprendiz faz valer sua voz e sua diferença – assim, a cultura que se transmite também se transforma. Aqueles que já nascem sabendo tudo que precisam saber estão condenados a repetir a vida de seus antepassados. Nós, que temos de trabalhar para conquistar nossa forma de ser humanos, refazemos continuamente essa forma.

O processo se dá por meio da linguagem, mas também para passar adiante a própria linguagem. A mãe que conta uma história ao filho pequeno está usando a língua para contar a história ou está transmitindo a língua ao contar a história? A mãe que insiste: "diga obrigado, peça licença, diga bom dia" está ensinando boas maneiras ou demonstrando usos do português em certas situações sociais?

Em breve, muitos de vocês serão meus colegas de profissão: professores de língua e literatura. Desejo que nunca esqueçam para que estão ali. Na prática escolar, é muito fácil fazer do conhecimento um amontoado aleatório de irrelevâncias, e isso não leva as crianças e os jovens a compartilhar da cultura de que são herdeiros, e que precisam prosseguir transformando. Definitivamente, não somos pingüins. Não trazemos, como herança biológica, o que precisamos saber para realizar nossa vida. Por isso precisamos da educação, por isso a linguagem é vital para nós. Mas o filme sobre os pingüins fala muito de nós ao falar do que não somos. Quando vi os adultos deixando os filhotes, após meses dedicados inteiramente a garantir a sobrevivência deles, lembrei palavras ouvidas de um colega, anos atrás: o bom professor é como o bom pai – trabalha para se tornar dispensável.

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº 7 : download PDF

 

 






 

 


 

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