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Poesia é a tecnologia de ponta da língua

 


 

CLAUDIA ROQUETTE-PINTO, carioca, budista e mãe de três filhos, formada em Tradução Literária pela PUC, tem poemas incluídos em diversas antologias nacionais e internacionais e cinco livros publicados: Os Dias Gagos (1991), Saxífraga (1993), Zona de Sombra (1997), Corola (Prêmio Jabuti 2002) e Margem de Manobra (2005). Este último está indicado para o Prêmio Portugal Telecom, notícia que Claudia nos deu em primeira mão, na tarde de chuva e frio em que conversamos. Mas o papo foi caloroso e animado. E o PLÁSTICO BOLHA ainda ganhou um poema inédito de Claudia, que você pode conferir na página quatro.


O seu primeiro livro é de 1991 (Os Dias Gagos). De acordo com Paulo Henriques Britto, “um livro de estréia, mas de modo algum ‘um livro de estreante’”.Quando o poeta está pronto para publicar?

Há caminhos para se trilhar, um caminho para o poeta percorrer e não se envergonhar do que escreveu. O primeiro livro tem esse condão. Publicar é como perder a virgindade. É o momento em que o poeta está doido para mostrar seus poemas. É importante para o poeta iniciante buscar interlocutores, professores, outros poetas, para ter um feedback. Mas há uma hora em que o
poeta tem de procurar o mundo, isso vai amadurecendo o trabalho. Não é que a voz do outro influencie o poeta, mas o modifica, faz pensar sobre coisas das quais o poeta está muito próximo para poder enxergar.

A imagem é sempre muito forte nos seus poemas. As imagens cruas também deixam sua marca da realidade violenta No seu livro Margem de Manobra, você aborda temas públicos e controvertidos, como os conflitos em Saravejo.Este livro marca uma mudança de temática?

Essa é uma visão superficial do que eu faço, um dos dilemas da minha poesia. Isso me deixa um pouco inquieta, às vezes.
Muitos pensam que eu mudei de temática e isso me incomoda um pouco. Muitos não percebem (e eu gostaria que todos pudessem perceber) que, na verdade, quando estou falando de uma paisagem, estou falando sobre uma paisagem mental. Quando estou falando de uma flor, de uma planta, estou falando de um estado de espírito ou de um processo de pensamento. A minha poesia é algo que se apóia nesses anteparos externos, como uma planta, uma tela. Aparentemente estou falando daquilo, mas na verdade, estou falando até no próprio fazer poético.Toda a minha poesia está voltada para isso. São duas coisas que, hoje em dia, estão bem
claras para mim; são dois centros sobre os quais eu me debruço: o processo de pensamento, que engloba a própria feitura do poema e o envolvimento amoroso, que é uma questão que me fascina, para a qual nunca encontro resposta (porque não há mesmo). Trabalho com todos os aspectos desse tipo de integração, com questões ontológicas. Mas houve um movimento,sim. Margem de Manobra é um livro diferente, mais irregular, tem uma quebra maior, o mundo exterior não estava tão nomeadamente presente, essas questões mais sociais. Por isso gosto tanto dele; acho que não é um livro tão coeso quanto Corola, que é mais todo fechado. Margem de Manobra tem mais altos e baixos, mas ele foi importantíssimo na minha trajetória; e ele tem muito a ver com a minha vida. Ele veio depois de muitas perdas, mortes, muitas mudanças. Então, acho que ele tem muito a ver com tudo isso. Eu fiquei cinco anos sem publicar.
O poeta tem uma função social? Acho que sim. A função do poeta é falar sobre os assuntos universais mas se aprimorar enquanto instrumento de uma fala que vai tocar, vai varar os outros; mas isso é função de todo artista, não só do poeta. É uma função transformadora, do microcosmo para o macrocosmo. Se eu falei de Saravejo, do menino que levou um tiro (no poema Sítio), foi porque essas coisas me inquietaram, me tiraram o sono, me deixaram perplexa, me tocaram primeiro para depois eu falar. Se fossem poemas ruins, de nada ia adiantar eu falar sobre os assuntos. Acho que no caso da poesia, o importante é o “como”, não o “quê”.


Como era o jornal cultual VERVE, que você dirigiu?

O VERVE nasceu na PUC, entre amigos, alunos de letras e comunicação. Uma pessoa que esteve desde o começo foi Luciana Sandroni, hoje em dia uma autora respeitadíssima, Felipe Fortuna, diplomata, escritor e crítico, Miriam Moreinos, Pedro Lessa, minha irmã, Mariana Roquette-Pinto, além de Sandra Kogut, Sheila Lírio, Toninho, Ricardo Oiticica e ainda Marcel Souto Maior, hoje um best-seller. Tínhamos colaboradores como Chacal, Fausto Fawcett. Nós éramos inquietos, achávamos que havia pouco espaço para mostrar o que as pessoas estavam fazendo.
Nós nos cotizamos e fizemos o primeiro número, o número zero. Depois meu pai se mostrou disposto a investir e conseguimos um financiamento. Nessa época, tínhamos um enorme prazer quando descobríamos alguém que escrevia bem. Quando o jornal acabou, fiquei meio sem identidade, questionei muitas coisas, inclusive por que eu não estava escrevendo. Na verdade, estava escrevendo, mas não estava assumindo. Como também enviavam muitas coisas
ruins para o jornal, pude comparar com meus próprios poemas. Publiquei meu primeiro livro, que teve pouca repercussão, mas uma crítica muito dura no jornal. Criei logo uma casca.

Como é o mercado para quem escreve poesia no Brasil?

A palavra mercado não se aplica à poesia. Poesia não é uma coisa comercial. O poeta Manoel de Barros escreveu: “O poema é antes de tudo um inutensílio”. Poesia é a tecnologia de ponta da língua. Tem de permitir a liberdade de experimentação, ser ousada, livre. Mas isso também se aplica a qualquer arte. É claro que acho que existem condições que podem ser implementadas
para que isso, que é tão vital, tão necessário, seja veiculado. A única justificativa não pode ser o mercado. Essa visão é totalmente equivocada. O problema é a falta de reconhecimento da importância da poesia; devia haver subvenção. Mas a sede por poesia não vai acabar, a sede do ser humano por transcendência, que só a arte traz.

São importantes as oficinas de poesia? Alguém pode aprender a fazer poesia ou o poeta nasce pronto?

Tudo que fomenta, divulga e instrumentaliza é bom. Não acho que ninguém vai sair escritor por ter feito uma oficina, mas acho que a pessoa sai dali um diletante, com a sensibilidade apurada
para ler melhor, pode depois encontrar uma carreira de crítico, vai ser alguém que vai fruir muito melhor, que se enriqueceu como ser humano. A sistematização não garante o talento, mas desenvolve alguma coisa, torna tudo mais sério, fundamentado.

E a tradução dos textos do Budismo Tibetano?

Eu me dediquei a isso intensamente por quase cinco anos e mais de perto quando fiz tradução simultânea por dois anos. Fui atendente de um lama; traduzi alguns textos sagrados, textos de
práticas; eu traduzia do inglês e o lama ajudava nas explicações. Os textos sagrados tibetanos são todos em versos, poemas longos, lindíssimos. Só se pode penetrar no texto com a explicação do
professor, são necessários a transcrição e o comentário.

E os novos projetos?

Agora voltei a fazer colagens e pretendo fazer um livro de colagens com textos de prosa poética.


Esse texto foi publicado no plástico bolha nº 7 : download PDF

 

 






 

 


 

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