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Do preconceito

Theófilo Rodrigues


Era uma vez uma vila localizada logo acima da linha do equador. A vila era pequena, com não mais de uma centena de habitantes. Próximo a essa vila havia uma floresta na qual vivia uma tribo, cuja principal característica, além do canibalismo, era o fato de andarem todos com uma pena de arara vermelha atrás da orelha. Era a tribo dos Araras. Os habitantes da vila morriam de medo dos índios canibais e, por este motivo, evitavam sempre que possível entrar na floresta pelo lado onde se encontravam os Araras.

Em certa ocasião, um menino da vila, que havia acabado de ver em uma revista a foto de diversos meninos de outra vila jogando peteca, se interessou e resolveu fazer ele mesmo uma peteca. Partiu sozinho rumo à floresta e começou a catar penas vermelhas das araras da região. Talvez por pura zombaria ou mero descaso, o menino resolveu colocar uma das penas que havia encontrado atrás de sua orelha e começou a brincar como se fosse um dos integrantes da tribo dos Araras.

Entretanto, sem que o menino percebesse, uma senhora que também estava ali, colhendo flores para seu jardim, o avistou e, ao ver o menino com a pena vermelha atrás da orelha, logo o confundiu com um índio canibal e começou a gritar: "Socorro!!! Um índio quer me comer!!! Socorro!!!" O marido dessa senhora, ao ouvir os gritos, imediatamente apanhou sua espingarda, correu em direção aos gritos e, ao avistar o suposto índio canibal com a pena vermelha atrás da orelha, deu-lhe um tiro fatal. O engano causou a morte instantânea do menino que só queria brincar de peteca.

Esta pequena história pode nos mostrar quantos erros o preconceito pode gerar. O menino, só porque tinha uma pena vermelha atrás da orelha, foi confundido com um índio canibal e morto sem que pudesse sequer abrir a boca em defesa própria. No entanto, nós não podemos deixar de observar que, se ele não fosse um menino inocente, mas sim um índio canibal (com fome), a senhora, se não tivesse gritado desesperadamente, poderia ter morrido. Como dizer então que a senhora, ao agir com enorme preconceito, estava errada ao gritar por socorro?

O preconceito causou a morte de um menino, mas poderia ter salvado a vida da senhora. Não que o preconceito seja merecedor de defesa, mas cabe demonstrar que ele faz parte do instinto de sobrevivência do ser humano. Mais do que isso, o preconceito é socialmente construído. Estava introjetado no espírito daquela senhora de maneira que, sempre que ela visse uma pessoa com pena vermelha atrás da orelha, ela deveria temer.

Podemos observar um outro fato social mais próximo de nós, cariocas. Pesquisa realizada pelo economista Marcelo Néri, do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV),"Retrato do Presidiário Carioca", nos mostra que a população carcerária do Rio de Janeiro soma 10.000 presidiários, sendo que 66,5% são negros. A maioria é composta por homens, jovens, de baixa escolaridade, solteiros, sem uma religião definida, negros ou pardos. Sabendo que a sociedade tem, muitas vezes sem saber, esses dados introjetados, fica mais fácil entender por que uma senhora qualquer, quando está passeando em uma rua à noite, ao perceber um menino negro vindo em sua direção, trata logo de atravessar a rua por temê-lo, por mais inocente que o menino seja. Não tento aqui entender as causas desse fato social que gera desigualdades entre pessoas de cores diferentes (a meu ver, as causas são estritamente econômicas), mas sim demonstrar como o preconceito é socialmente construído sem que a própria sociedade perceba.

Todos (a senhora das flores, o menino da pena vermelha, o menino negro e a senhora que atravessa a rua) têm a mesma raça, a raça humana, mas possuem identidades visuais diferentes. Logo, o preconceito não é por genes diferentes, mas sim por identidades visuais distintas, seja a cor, seja a pena vermelha na cabeça, que transmitem, cada uma de sua forma, mensagens socialmente construídas.

 

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº 8 : download PDF

 

 






 

 


 

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