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Irrespirável e ‘in-biografável’



Ela preferiu não expor dados de sua biografia, por se achar comum demais. A professora Ana Cristina Chiara, da UERJ, pode até se julgar uma pessoa comum, mas o livro "Ensaios de possessão (irrespiráveis)" não é - definitivamente - uma obra comum. Em alguns ensaios sobre literatura, ela subverte o próprio conceito de texto ensaístico-literário, "arranhando-o com as unhas", como explica nessa ótima entrevista que nos concedeu.

A professora Marília Rothier diz que o ensaio é uma forma de escrita que reconhece na arte o mesmo potencial de produção do conhecimento que é creditado normalmente à ciência. Como ensaísta, você se sente produzindo conhecimento através da arte?

 

Eu concordo com a Marília, claro, porque ela se refere, por exemplo, a escritores como Walter Benjamin. Meu caso, no entanto, é de um outro tipo de ensaio. Seria uma experimentação do ensaio. No caso particular dos ensaios que publiquei, eu tinha uma deliberada intenção de deslocar o lugar da reflexão, o lugar de onde eu falava, pensava, escrevia, para um "canto" meio de banda, como quem vê o circo pelo lado de fora da lona... Era mais para provocar um arranhão na pele sedosa da linguagem. Mas isso já é de uma enorme pretensão...

Seu trabalho é bastante ousado, mesmo para um ensaio. Até onde há espaço para a ousadia no mundo acadêmico, esse seria um de seus interesses?


De um modo geral não pode haver "espaço para ousadia". Ele tem de ser conquistado, desafiado. Se não qual a graça? Eu não me preocupo muito com as conseqüências do que escrevo, pois as coisas se impõem como necessidade, daí serem ensaios de possessão.

Com base na experiência de quem responde muito a "por que Plástico Bolha?", por que o "irrespiráveis" do título de seu livro?


Os irrespiráveis estão dentro de uma bolha sempre...Eu comecei a escrever umas coisas a que chamei de Formas do irrespirável, por causa de um verso do Wally Salomão. Estas "formas" tiveram uma circulação de cinco ou seis vítimas para quem eu mandei por e-mail e respondiam a um tipo de experiência de sentimento que, vi depois, tinham a ver com o clima dos ensaios. O irrespirável é bacana porque tem dentro dele a possibilidade do respirar e a de pirar. Depois tudo volta ao normal.

Em dois ensaios do livro você trata de Carolina Maria de Jesus, autora (negra e favelada) de "Quarto de Despejo". A autora também já foi objeto de outros estudos seus. Para você, qual o lugar de Carolina dentro do contexto de nossa literatura? Apesar de toda a tendência de "valorização das margens" da contemporaneidade, podemos dizer que Carolina recebe, atualmente, o seu devido valor?


Eu trato dela de um modo menos piedoso do que a "valorização das margens". Acho que a Carolina viraria "o diabo de saias" se eu a tratasse deste modo. Eu a trato como uma escritora tão maravilhosa quanto Clarice Lispector ou Hilda Hilst.

No ensaio "Um Anjo Flagrado em Pleno Vôo ", você trata da sua xará Ana Cristina César, poeta e ex-aluna da PUC, que se suicidou nos anos 80. No texto, é mencionada uma atitude de "fingimento sincero" no jogo da poeta para sua "platéia". Você diria que em sua poesia já poderiam ser identificados traços do suicídio?


Olha, eu sou um pato, um prato, para os suicidas. Minha dissertação de mestrado foi sobre o Nava, mas antes já tinha me dedicado muito ao Torquato, depois a Ana e este ano juntei num pacote a Ana C, a Sylvia Plath e a Alejandra Pizarnik....E o negócio é o seguinte: se a gente banca o leitor detetive pode identificar traços de suicídio em todo escritor porque escrever é se suicidar um pouco e em muitos sentidos - bons e ruins. Mas sim, você pode identificar traços suicidas na escrita da Ana C. O que talvez seja mais enigmático é saber se os que se suicidam efetivamente escreveram para ensaiar o suicídio ou para adiar um pouco. Se você quiser, poderá até achar que eu te respondendo assim sou uma suicida em potencial. E isso dá um medo. Mas é mentira.

Para finalizar, você poderia fazer um breve resumo de sua biografia para montarmos a chamada da entrevista?


Difícil resumir a biografia de uma professora, de uma mãe, de uma mulher comum. Porque a vida de uma pessoa comum é in-biografável, né?


 

Ensaios de possessão (irrespiráveis) - De Ana Cristina Chiara.
Editora Caetés 118 pg R$ 22,50 (na CargaNobre)

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº 8 : download PDF

 

 

 






 

 


 

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