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José Carvalho


Há um problema hoje criado para o drama pela temática social que desponta como um desafio às futuras gerações. Alguns autores chegam a falar explicitamente em salvamento do drama, já que suas bases vêm sendo corroídas, de forma acelerada - sobretudo dos últimos dois séculos para cá. Na minha tela dramatúrgica, por enquanto, não consigo projetar soluções nem formular respostas. Tudo o que me vem nessa hora de angústia pós-moderna são perguntas. E é o que eu desejo compartilhar com vocês, alunos de letras: pergunta


No filme Vivre sa vie, de Jean-Luc Godard, a personagem principal interpretada por Anna Karina, uma prostituta, se encontra casualmente com um filósofo pouco inteligente (numa definição do diretor), e os dois travam à mesa de um café, um quase diálogo, ou, antes, uma tentativa de diálogo. Manchadas de lirismo e elementos épicos, as falas vão esvaziando pouco a pouco a própria forma dialógica, cerne do drama, até constatarmos que a intenção de Godard é nos usar como testemunhas da morte do logos. Sim, a discussão ali é sobre a impossibilidade de representação através da palavra. O filósofo, tratado como um pobre-diabo eurocêntrico, logocêntrico, fonocêntrico é lançado numa espécie de vazio existencial quando ouve da prostituta, a personificação da temática social, que o drama está em crise e que uma vida toda dedicada aos sistemas formais como a dele pode ter sido inútil. Daí eu pergunto: há vida inteligente na dramaturgia hoje fora da sua própria crise?

É curioso pensar que no meio de toda essa crise a dramaturgia nunca esteve tão perto do humano e tão longe de si mesma. Parece que o preço a ser pago pela inclusão da temática social é o do esgotamento do drama, muito embora a dialética de Hegel encontre no embate entre aniquilamento e superação o equilíbrio ideal para que exemplos do passado se inscrevam em práticas do presente. Ainda assim, não é tarefa fácil ser dramaturgo, aprendiz, teórico do drama nos dias de hoje. A sensação de que se caminha sobre campo minado é constante. Pois, onde deveríamos encontrar a fala de uma personagem, se encontra o comentário do narrador, como vimos no exemplo acima em que a prostituta interpretada por Anna Karina não é outra coisa senão a voz épica de Godard. Ou, onde se espera a materialização do binômio presente e presença do drama, há sempre uma temática social se sobrepondo ao conflito inter-humano, deixando a forma dramática sob o signo da perda de sentido. Daí eu volto a perguntar: diante de toda essa problemática, em que bases o dramaturgo deve construir o seu texto? Como conciliar a crise do drama com o que mercado espera absorver como conteúdo?

Antes que me tomem equivocadamente como nostálgico ou purista eu gostaria de sair em defesa da prática. Depois de um bom tempo conciliando teoria e prática, percebi que faltava na nossa formação um primeiro entendimento do drama como forma dialógica, como sucessão de presentes absolutos, com as personagens sendo a expressão do espectador; faltava o entendimento do drama que institui a conversação e cria o tão atacado "palco ilusionista". E não só porque é a habilidade que será exigida do dramaturgo no mercado de trabalho, mas também porque proporcionará a esse mesmo profissional uma base sólida para manchar a tradição.

Pois é, queridos alunos, sinceramente, confesso que ainda não sei como superar os paradoxos contemporâneos conservando o passado, como sugere Hegel. Assim como não tenho a mais vaga idéia de como conciliar liberdade e necessidade, paixão e dever, depois que a temática social desmontou o drama e não nos deixou nenhuma bússola ética. Mas, se é que ainda faz sentido pensar em soluções e respostas, como sugeri no começo, talvez a tarefa das futuras gerações seja tão-somente buscar uma inspiração na fórmula de Hölderlin quando ele diz: "Mas, onde o perigo cresce, cresce também o que salva".

Eu me sinto parte integrante das futuras gerações. E vocês?





Esse texto foi publicado no plástico bolha nº 9 : download PDF

 

 






 

 


 

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