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Blues
Nathalia Calmon

Personagem: O Economista


Ele está sentado, escrevendo em sua máquina de escrever. Na mesa à sua frente há também uma garrafa de whisky, um copo, um cinzeiro, cigarros e papéis.

-É... é bonito ser neurótico. É charmoso. Estúpido... Entupido de problemas sem nunca tê-los conhecido! A vida inteira fui um mártir, e orgulhoso ostentei minha cruz. Tenho esse dom. Transformar pequenos obstáculos do dia-a-dia em infortúnios da humanidade. Cada mísera banalidade transformada em páginas. É esse o motivo pelo qual escrevo. É rentável. Achava elegante me perder em meus devaneios com um lápis e um papel na mão. Dá-se a impressão de que se tem uma mente voraz, que freneticamente resolve um turbilhão de problemas. Na realidade essa mente só é mais lenta do que as outras; e é capaz de ficar horas remoendo um só problema. E passei a vida vestindo essa máscara. Sempre achei nobre, entende? Sempre me achei nobre; com um quê de superior. Talvez todo mundo se ache assim no fundo. Superior. Afinal, faço parte de uma elite intelectual boazinha, que quer defender os menos favorecidos. Idiota. Idiota! É triste ouvir isso de quem um dia tentou nos compreender e cansou de ser taxado de omisso, preconceituoso. E eu o culto, o sábio, o justo. Afinal eu conheço a ética, a estética a dialética! Passei a vida a estudá-las! Afinal o que eu não conheço? Aprendi a examinar as pessoas, e, obviamente, a julgá-las como ninguém. E então ela vem me dizer que fui sempre eu, o ser magnânimo, que estive errado. Egoísta e esnobe. Mas eu era o dono da verdade. Pois eu passei a vida pensando, me perdendo em minhas idéias, subestimando todo mundo... Pois passei a vida, passei a vida, lá fora passa a vida. Divaguei tanto... raciocinei tanto, ponderei tanto. Perdi tanto. Economista, de classe média alta, boa família. Todos cidadãos respeitáveis e generosamente a favor da democracia. Tudo mentira. Todos tupiniquins metidos a realeza. E eu fazendo parte dessa panelinha de pequenos burgueses semi-realizados; seminobres. Agora estou aqui. Contestando meus valores. Malditos valores. Maldito berço. Maldita superioridade escrota, que me manteve distante de todos sempre. Eu não me misturo com a ralé! Não, é claro que não. E nunca ninguém vai me fazer descer do pedestal. Sou cético. Ah, ia me esquecendo: sou cético! Não acredito em nada que não seja puramente racional. E no entanto é por ela que estou aqui. Por causa de uma mulher; quem diria? Uma mulher! O amor. E estou aqui... A filha da puta fez o meu mundo cair na minha cabeça. A desgraçada me fez enxergar o quanto eu sou medíocre. Vaca. Agora foi embora. E me deixou afundado nesse mar de lama ao qual pertenço e que fez questão de jogar na minha cara. Tá certo... Mais uma vez acuado, Pedro; mais uma vez! Mais uma vez não vai fazer nada, vai deixar passar em branco e não vai viver. Não é fácil mudar na minha idade. Irônico? Verdade. Não é. Não pra mim. Eu sempre tive certeza do que queria! Eu sempre tive razão. E agora, mesmo que não fiquemos juntos, eu não sou o mesmo! E portanto eu não tenho nada; só orgulho. De quê? -Ele olha para o despertador que começa a tocar. Desliga puto -Perdi! Perdi. Sem nem beijo de despedida. Perdi. Foi melhor assim? Acho que sou muito cansativo. -Pausa- Você fez muito efeito e me deixou muito perdido! Perdi. -Pausa- É engraçado como tudo começou só no sexo. Sexo às vezes abre as portas das pessoas. Ficamos mais complacentes. Ficamos íntimos, sem saber de nada. Cada dia em que eu descobria alguma coisa, mais perdido eu ia ficando; em você. Devo ter sido muito cansativo. Previsível. Previsível é tentar tornar as coisas previsíveis. Será que chegaria a algum lugar? Será que você quer saber? Não. Você desistiu. Você desistiu mesmo.

 

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº 9 : download PDF

 

 






 

 


 

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